Tendências globais: futuro sombrio ou promissor?

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Desde 1997, a cada quatro anos, o Conselho Nacional de Inteligência dos Estados Unidos publica um estudo sobre tendências e incertezas que podem transformar o mundo nos próximos vinte anos, o Global Trends Report. O propósito é auxiliar os líderes políticos americanos no seu planejamento de longo prazo. Mas o estudo tem servido, também, cada vez mais, para alimentar discussões sobre o futuro em diversas instâncias e em distintos locais do planeta, ajudando organizações e líderes mundiais a navegar no atual mundo complexo, interconectado e incerto, criando (boas) estratégias para a ação.

As tendências para o futuro são por assim dizer sombrias. No entanto, nem tudo (ainda) está perdido. O relatório acena com a possibilidade de luz no final do túnel, dependendo do que a humanidade for capaz de construir a partir de agora.

Como não poderia deixar de ser, as novas tecnologias desempenham um papel relevante no contexto atual e na construção dos futuros possíveis, colocando-se tanto como parte do problema como da sua solução. Com apoio das redes sociais, para o bem ou para o mal, indivíduos, grupos e estados ganham poder crescente confrontando a ordem estabelecida. Isso seria um prenúncio do fim do suposto contrato celebrado entre indivíduos, sociedade e Estado que, durante séculos, legitimou os governos? Precisaríamos, e teríamos tempo hábil, para estabelecer um novo contrato social?

Acompanhe, abaixo, os principais achados do relatório.

  • Oportunidades ou conflitos: o que irá prevalecer? – O progresso das últimas décadas trouxe uma série de boas novidades: permitiu conectar pessoas, fornecendo maior poder para indivíduos, grupos e estados, e resgatar muitos da miséria. Mas também gerou conflitos (a Primavera Árabe, a Crise Financeira Global de 2008 , o crescimento do populismo e das ameaças contra a ordem vigente, etc.) que revelam a fragilidade das conquistas obtidas e anunciam um futuro sombrio.

Nos próximos cinco anos, veremos um aumento dos conflitos internos e entre países. Haverá uma desaceleração do crescimento em nível global e os desafios serão cada vez mais complexos. Uma gama maior de estados, organizações e pessoas poderosas darão o contorno de uma nova geopolítica. Para melhor e para pior, o cenário global emergente aponta para o fim da era de domínio americano que teve início com a Guerra Fria. E, também, talvez, o fim da ordem internacional baseada em regras estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial. Será muito mais difícil cooperar internacionalmente e governar de modo a atingir as expectativas dos cidadãos. Através do poder de veto, pessoas e grupos irão frear a colaboração a cada passo da trajetória que busca a convergência. A divulgação massiva de informações fortalecerá várias realidades concorrentes, dificultando a conquista de consensos através de acordos mundiais.

Subjacente à crise de cooperação, ganharão força as diferenças locais, nacionais e internacionais no que diz respeito ao papel do governo e a questões diversas, incluindo economia e meio ambiente, religião, segurança e direitos humanos. Os debates sobre os limites morais serão mais pronunciados e a divergência de valores e interesses entre os Estados ameaçará a segurança internacional.

Seria tentador impor ordem nesse caos aparente, mas isso custaria muito no curto prazo e falharia no longo prazo. Cercear os players que surgem agora, em vários domínios, em maior quantidade e com maior poder de influência traz baixa relação custo-benefício: iria requerer um volume excessivo de recursos em um cenário de crescimento econômico lento, limitações fiscais e dívidas galopantes. Cercear a liberdade no ambiente doméstico seria decretar a morte da democracia, provocando autoritarismo, instabilidade ou ambos. O uso da força material continuará sendo uma peça fundamental para a garantia do poder geopolítico e estatal e um sem número de atores com mais poder irão utilizar as redes, os relacionamentos e as informações para competir e cooperar.

As guerras americanas e soviéticas, especialmente no Vietnã e no Afeganistão, foram um prenúncio dos conflitos do pós-Guerra Fria e das lutas atuais no Oriente Médio, África e Sul da Ásia, em que adversários menos poderosos negam a vitória por meio de estratégias assimétricas, ideologias e tensões sociais. A ameaça do terrorismo irá se expandir nas próximas décadas, acompanhando a importância crescente de pequenos grupos e indivíduos que empregam novas tecnologias, ideias e relacionamentos a seu favor.

  • Seja como for, os Estados continuarão a ser altamente relevantes. Agressores em nível regional e atores não estatais buscarão brechas para atingir os seus interesses. A incerteza sobre a hegemonia futura dos Estados Unidos, um Ocidente muito voltado para o seu próprio umbigo e a erosão das normas estabelecidas para a prevenção de conflitos e a defesa dos direitos humanos irão encorajar China e Rússia a querer comprovar o grau de influência dos Estados Unidos. A agressão camuflada e outras formas disfarçadas de perturbação deverão permanecer abaixo do limiar de uma guerra quente, mas sempre existe a chance de erros de cálculo. A confiança excessiva de que a força material será capaz de deter a escalada de agressões aumentará os riscos de conflito entre os estados a níveis ainda não observados desde a guerra fria. Mesmo que seja possível evitar a guerra quente, o padrão vigente de cooperação internacional iria mascarar diferenças significativas de valores e interesses entre os países e seria pouco eficiente para conter as influências nas esferas regionais.
  • Em muitos países, o cenário também será sombrio em nível doméstico – Ao mesmo tempo que décadas de integração global e avanço da tecnologia enriqueceram os mais ricos e tiraram bilhões da pobreza, principalmente na Ásia, também deixaram as classes médias ocidentais mais pobres e alimentaram ação de retrocesso em relação à globalização. Os fluxos migratórios são maiores agora do que nos últimos setenta anos, reduzindo os recursos públicos disponíveis para assegurar o bem-estar, aumentando a concorrência por empregos e reforçando os impulsos nacionalistas e contra as elites. O crescimento econômico lento e as transformações tecnológicas nos mercados de trabalho irão colocar limites, nos próximos anos, para a redução da pobreza e levarão a tensões internas, alimentando o nacionalismo que, por sua vez, irá contribuir para os conflitos entre países.
  • Esse futuro próximo sombrio em construção ainda não está inteiramente delineado. Os próximos cinco ou vinte anos podem ser mais ou menos promissores dependendo das escolhas. Três perguntas são fundamentais: como os indivíduos, grupos e governos irão renegociar as suas expectativas mútuas com o propósito de estabelecer uma ordem política em um mundo constituído por indivíduos com poder crescente e sujeito a transformações econômicas rápidas? Governos, indivíduos e grupos poderosos conseguirão estabelecer novos padrões ou arquiteturas de cooperação e competição internacionais? Governos, grupos e indivíduos estão se preparando, agora, para responder adequadamente às várias questões globais existentes, tais como mudanças climáticas e tecnologias emergentes?
  • Três diferentes histórias – “Ilhas”, “Órbitas” e “Comunidades” são narrativas que exploram como as tendências e escolhas em diferentes níveis podem se cruzar para criar futuros diferentes. Elas investigam respostas que ocorrem nos níveis nacional (Ilhas), regional (Órbitas) e subestado transnacional (Comunidades).

A narrativa Ilhas fala de uma reestruturação da economia global que considera períodos longos de crescimento lento ou inexistente, desafiando tanto os modelos tradicionais de prosperidade econômica como a presunção de que a globalização continuará a se expandir. Destaca os desafios que os governos terão para atender às demandas sociais no que se refere à segurança econômica e física, à medida que cresce o impulso popular à globalização, as tecnologias emergentes transformam o trabalho e o comércio e a instabilidade política aumenta. A narrativa enfatiza as questões que os governos terão de enfrentar em condições que podem levar alguns a se voltar para o próprio umbigo, reduzir o apoio à cooperação multilateral e adotar políticas protecionistas, e outros a buscar mecanismos para alavancar novas fontes de crescimento econômico e produtividade.

A narrativa Órbitas explora um futuro de tensões criadas por poderes concorrentes em nível internacional, que perseguem suas esferas próprias de influência ao tentar manter a estabilidade doméstica. Mostra como as tendências em ascensão do nacionalismo, os padrões mutantes de conflitos, as tecnologias emergentes que rompem com o modo vigente de fazer as coisas e a diminuição da cooperação global podem se combinar para aumentar o risco de conflito entre países. Essa narrativa ressalta as escolhas políticas que os governos fazem que podem reforçar a estabilidade e a paz ou exacerbar as tensões.

A narrativa Comunidades indica como o aumento das expectativas com as políticas públicas associado à redução do poder dos governos nacionais abrem espaço para os governos locais e os atores privados, ameaçando os pressupostos tradicionais e as certezas sobre o que significa governar. A tecnologia da informação continua a ser o principal facilitador, e as empresas, os grupos, as instituições de caridade e os governos locais se mostram mais ágeis que os governos nacionais na prestação de serviços de interesse das populações. A maioria dos governos nacionais resiste, mas outros cedem algum poder para as redes emergentes. Em todo lugar, do Oriente Médio à Rússia, o controle torna-se mais difícil.

  • Como faz parte do paradoxo do progresso, as mesmas tendências que geram riscos de curto prazo também podem criar oportunidades para resultados favoráveis no longo prazo. Se o mundo fosse afortunado o suficiente para poder aproveitar essas oportunidades, o futuro seria melhor do que sugere as três narrativas. No cenário global emergente, cheio de surpresas e descontinuidades, os países e as organizações mais capazes de explorar as oportunidades serão os mais hábeis para se adaptar às mudanças em curso, perseverar diante das adversidades e tomar medidas para uma recuperação rápida. Investirão em infraestrutura, conhecimento e relacionamentos que permitam gerenciar o choque – seja econômico, ambiental, social ou cibernético.

Da mesma forma, as sociedades mais resistentes serão aquelas com possibilidades para desencadear e abraçar o potencial de todos os indivíduos – sejam mulheres e minorias ou os que sofrem com as tendências econômicas e tecnológicas recentes. Estarão se movendo com, ao invés de contra, as correntes históricas, fazendo uso do alcance cada vez maior da habilidade humana para moldar o futuro. Em todas as sociedades, mesmo nas circunstâncias mais desoladoras, haverá aqueles que optam por melhorar o bem-estar, a felicidade e a segurança dos demais – empregando tecnologias transformadoras para fazê-lo em escala. Enquanto o oposto também é verdadeiro: as forças destrutivas estarão fortalecidas como nunca estiveram. O principal quebra-cabeças para os governos e as sociedades é como mesclar as aptidões individuais, coletivas e nacionais de forma a gerar segurança, prosperidade e esperança sustentáveis.

Fonte: Global Trends.

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Virgínia Duarte
Socióloga e cientista política, com especialização em gestão empresarial. Foi responsável pela área de Inteligência da Softex. Responsável técnica e coautora de várias publicações sobre o setor de TIC. É sócia-diretora da TIC em Foco Estudos e Projetos e editora do site/blog TIC em Foco.

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