Software livre e código aberto no novo ambiente de mobilidade

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No ambiente para desktops, a meu ver, as chances de Linux foram e deverão continuar reduzidas. É provável que mantenha participação importante no mercado de servidores/estações de trabalho, em virtude de este segmento ser menos contaminado por escolhas e preferências do usuário final, sem perfil técnico.

Linux encontrou menos barreiras no ambiente de mobilidade. Na versão Android, chegou até os usuários finais com pouco conhecimento de informática, incorporado em dispositivos móveis tais como tablets, smartphones, iPods, etc.

O software livre/código aberto, portanto, está ligado ao sucesso de novas empresas tais como Google e Facebook. No entanto, as pessoas consultam sistemas de busca na Internet, interagem nas redes sociais ou utilizam dispositivos móveis com sistema operacional livre, mas ignoram que estão utilizando sistemas livres.

O fato de o Android ter se tornado um dos líderes de mercado no segmento de sistemas operacionais móveis não levou às liberdades que estariam supostamente associadas ao uso de um sistema livre. Também não desencadeou um crescimento vertiginoso de empresas desenvolvedoras de software livre, gravitando em torno da nova plataforma. Além disso, segundo a opinião de alguns, tirou a força do movimento pelo uso do software livre, já que hoje Linux está em quase tudo, hoje quase tudo é livre. Se cortarem o software livre, o mundo para. Ele está presente no roteador, televisor, blue ray, etc.). Haveria, então, ainda, a necessidade de um movimento para incentivar o uso do software livre?

A infraestrutura em Linux mostrou-se uma decisão acertada para empresas que utilizam sistemas operacionais e ferramentas livres como meio para gerar serviços facilitados pela TI (Information Technology Enabled Services, ITES). Um exemplo, nesta direção, é o ambiente Google disponível na web, para pesquisa por dados e informações. Vale recordar, ainda, que o Android se tornou o sistema operacional privilegiado das empresas desenvolvedoras de software que não dispunham de um sistema próprio.

A estratégia Google foi determinante para o sucesso do Android. Um dos seus acertos deve-se à criação de uma aliança de empresas interessadas em gravitar sobre a nova proposta de plataforma tecnológica: a Open Handset Alliance (OHA).  A OHA permitiu, por um lado, a redução dos custos e das incertezas técnicas relacionadas com o aprimoramento do Android, e, por outro, ampliou as chances de, com apoio de parceiros, lançar rapidamente no mercado equipamentos com o software embarcado e produtos e serviços complementares.

Outro aspecto da estratégia foi a decisão de licenciar o Android como código aberto, fornecendo aos parceiros e colaboradores a possibilidade de darem o destino de sua preferência para as soluções criadas a partir de alterações no Android. Como consta da página do Android: “Android tem a ver com liberdade e escolha. O seu objetivo é permitir abertura no mundo móvel e não acreditamos que seja possível predefinir ou determinar todos os usos que as pessoas irão querer dar ao nosso software. Assim, encorajamos a todos a fabricar dispositivos que sejam abertos e modificáveis, mas não acreditamos que esteja sob o nosso controle forçá-los a agir desta forma” [http://source. android.com/source/licenses.html. Tradução própria]. A decisão pelo código aberto, ao invés do software livre, atenuou o copy left e abriu a possibilidade de o código fonte vir a sofrer modificações e ser apropriado de modo proprietário por interessados.

Embora Android seja um software de código aberto, as versões embarcadas nos dispositivos móveis não foram desenvolvidas no modelo bazar, tal como defendido por Eric Raymond. Responder de modo proativo às motivações nem sempre convergentes das grandes empresas e das comunidades livres que gravitam em torno do Android deve ter sido um dos desafios a serem enfrentados no processo de consolidação da plataforma.  Em teoria, a decisão de licenciamento em código aberto deve ter agradado mais as grandes empresas que as comunidades livres. Para as grandes empresas, a opção pelo código aberto fornecia possibilidades para uma futura apropriação proprietária. As comunidades livres, pelo seu lado, talvez tivessem mais motivos para preferir licença capaz de garantir que o resultado da sua ação voluntária não fosse apropriado por ninguém, de modo particular.

Para Google, ficou o desafio de descobrir como obter ganhos financeiros com o Android, considerando que outros desenvolvedores, sejam empresas sejam integrantes das comunidades, teriam oportunidades para criar sistemas similares melhorados. Google baseou o seu modelo de negócios na obtenção de ganhos econômicos com a plataforma através da oferta complementar de software proprietário. Os fabricantes de dispositivos móveis e as operadoras de telecomunicações que circulavam em torno da plataforma fizeram o mesmo, combinando software proprietário e software de código aberto.

A estratégia traz riscos inerentes. Um deles diz respeito à possibilidade de atores relevantes substituírem a plataforma Android por outra semelhante, que passe a utilizar soluções próprias, ao invés do ambiente proprietário Google. Os usuários poderiam migrar facilmente de uma plataforma para outra, pois os efeitos de lock-in são atenuados neste modelo de negócios. Um resultado de um ambiente de lock-in atenuado é que as escolhas dos usuários passam a estar mais direcionadas para o valor percebido nos aplicativos. Sem a certeza da lucratividade propiciada pelos efeitos de lock-in, será decisivo contar com as externalidades de redes, ou seja, criar parcerias que permitam trazer produtos complementares capazes de fornecer valor elevado para a plataforma. No entanto, diante das incertezas do aprisionamento, por que uma empresa gastaria recursos no desenvolvimento ou nas melhorias de uma plataforma que poderia ser, sem grandes dificuldades, substituída, copiada ou apropriada por outra?

Assim, por exemplo, empresas chinesas estão fabricando computadores pessoais com sistema operacional móvel baseado em Android para competir diretamente com o Windows da Microsoft e com o Android da Google. A academia chinesa de engenharia revelou que mais de uma dúzia de firmas estavam customizando o Android, como próximo passo do banimento do Windows 8 dos computadores pessoais do governo chinês.

A fragmentação do Android em uma variedade de plataformas similares, cada uma com contornos próprios, pode ser uma ameaça para a possibilidade de consolidação deste sistema operacional ao longo do tempo, podendo prejudicar, em mais longo prazo, a sua capacidade de superar o iOS da Apple ou outras plataformas proprietárias.

Parece que já vi esse filme, no final dos anos 80 e princípio dos anos 90, durante a luta pela hegemonia no mercado de sistemas operacionais para estações de trabalho e servidores. O sistema Unix, fragmentado entre as várias opções desenvolvidas por diferentes fabricantes, acabou não tendo a força necessária para fazer frente ao concorrente de plantão: o Windows NT, da Microsoft.

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Virgínia Duarte
Socióloga e cientista política, com especialização em gestão empresarial. Foi responsável pela área de Inteligência da Softex. Responsável técnica e coautora de várias publicações sobre o setor de TIC. É sócia-diretora da TIC em Foco Estudos e Projetos e editora do site/blog TIC em Foco.

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