Softex fecha escritório em Campinas

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Em agosto passado, sem alarde, a Softex anunciou para os seus funcionários o fechamento do seu escritório em Campinas e a demissão de vários colaboradores. O motivo alegado foram as condições econômicas, uma justificativa mais do que razoável, considerando o atual contexto. Fazer o quê? “Faz parte”, como diz o filósofo.

A crise político-econômica que está devastando o país pegou todos de jeito. São milhões de desempregados. E até que uma nova rotina de confiança seja instaurada, uma onda de otimismo se forme e nos alcance e um fluxo constante de investimentos ocorra, muitas cartas de demissão serão encaminhadas, negócios irão fechar e sonhos se desfazerem como castelos de areia. Mas crises têm o seu lado positivo. São fundamentais para que as mudanças aconteçam mais rapidamente e podem contribuir para o surgimento de uma nova realidade, livre dos antigos vícios, aberta para a inovação.

Essa crise é especialmente dolorosa porque combina fatores internos – desindustrialização, infraestrutura deficiente, corrupção e aparelhamento do Estado, intrigas palacianas, má gestão e decisões equivocadas e mal fundamentadas, nada assim tão novo para nós, brasileiros – com um cenário externo que, sim, traz muitas novidades e, também, esperanças e inquietações. A ação combinada de forças diversas (mobilidade, nuvem, big data/analytics, redes sociais, convergência crescente entre físico e digital, Internet das Coisas) está transformando o mundo rapidamente, o jeito como as pessoas vivem e trabalham, o modo como desenvolvem produtos e prestam serviços; está questionando os nossos valores e os valores das nossas atuais propostas de negócios.

Dada a natureza da crise brasileira, uma resposta eficaz, o reinventar-se a partir das cinzas, terá que considerar as duas realidades: a interna, que nos atormenta e não é de hoje, e, também, as forças externas que irão nos atingir, inicialmente como uma bola de neve ainda sem tamanho suficiente para fazer grandes estragos e, depois, e rapidamente, como uma avalanche. A recuperação da crise, portanto, irá requerer das empresas e instituições (e por extensão de nós, trabalhadores) um conjunto todo novo de competências, incluindo atitude para realizar mudanças na gestão interna e capacidade para construir uma nova proposta de valor para os clientes.

No que diz respeito à gestão interna, o estilo frequentemente adotado de liderança, que afeta tanto o atual perfil do líder como o dos liderados, terá de mudar. A organização centralizada, tipificada em expressões do tipo ‘um manda e o outro abaixa a cabeça` ou ´manda quem pode e obedece quem tem juízo`, precisa ceder espaço para estruturas porosas, onde o poder de decisão é compartilhado, os supostos líderes podem e querem ser questionados, a informação e o conhecimento fluem abertamente, os projetos não são de um dono só, a interação entre os empregados se fortalece, há transparência e confiança e todos se tornam mais comprometidos com o resultado final.

No que concerne à proposta de valor para os clientes, as empresas e instituições terão de intensificar o conhecimento sobre o seu público-alvo, visando a oferecer soluções cada vez mais customizadas. E esta orientação para o cliente precisa ser feita dentro de um cenário em que, por um lado, as demandas não estão claras, ou seja, o cliente não sabe o que quer e, por outro, os modelos de negócios são construídos em novas bases, que privilegiam sustentabilidade, colaboração, simplicidade, facilidade de uso e gratuidade, o que coloca em risco o fluxo tradicional de recursos financeiros. Precisarão ser feitas mudanças significativas no design e no processo de desenvolvimento de produtos e serviços e nos modelos de comercialização. As tecnologias da informação e comunicação e as pessoas certas nos lugares certos, com perfil adequado, tanto técnico como comportamental, desempenharão um papel relevante no processo necessário de reinvenção.

No cenário atual de crise interna ainda mais complicada pela avalanche que vem de fora e que chega a galope, a questão que se coloca é se as empresas brasileiras terão visão, atitude e capacitação para realizar, em tempo hábil, as mudanças profundas requeridas na sua estrutura gerencial e de negócios.

Para instituições umbilicalmente ligadas ao governo, como é o caso da Softex, os desafios e obstáculos para sobreviver parecem ser ainda maiores. Não só em virtude da crise econômica atual que imobiliza o Estado e torna o processo de captação de projetos mais moroso que de costume. Não só em virtude das dificuldades políticas, que fazem as negociações infindáveis, com os acordos da véspera com fulano x tendo de ser renegociados no dia seguinte com fulano y. Não, a crise econômica e política é o que menos preocupa na situação atual de penúria, lastimável, em que se encontra a Softex e outras instituições assemelhadas. Na condição de braços operacionais do governo, estas instituições tornaram-se acéfalas, incapazes de voo próprio, sem condições para enxergar a luz atrás do túnel. Sem possibilidades para se reinventarem.

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Virgínia Duarte
Socióloga e cientista política, com especialização em gestão empresarial. Foi responsável pela área de Inteligência da Softex. Responsável técnica e coautora de várias publicações sobre o setor de TIC. É sócia-diretora da TIC em Foco Estudos e Projetos e editora do site/blog TIC em Foco.

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