Profissionais de TI em outros setores econômicos exceto o setor de software e serviços de TI (N-SSTI): quantos são e o que fazem

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Em 2015, no Brasil, existiam 315,5 mil profissionais com vínculos empregatícios formais em ocupações de TI empregados fora do setor de software e serviços de TI (SSTI), em empresas de outros setores econômicos (N-SSTI), tais como bancos, serviços de telecomunicações, estabelecimentos comerciais e industriais e na agropecuária. Essas pessoas desempenham funções diversas, de nível gerencial, superior ou técnico.

O número dos profissionais de TI empregados no N-SSTI cresceu em média, no período de 2007 a 2015, 5,3% ao ano (a.a.). Esse aumento foi inferior àquele observado para o setor de software e serviços de TI (10,9% a.a.), embora o N-SSTI ainda seja responsável pela maioria dos empregos em ocupações de TI (Figura 1).

Figura 1 – Número de profissionais com vínculo empregatício formal em ocupações em TI, considerando setor de atuação da empresa contratante – Brasil, período 2007 a 2015

No N-SSTI, os empregos em ocupações de software e serviços de TI dispersam-se por uma quantidade elevada de setores e segmentos econômicos. Os dozes segmentos com maior número absoluto de profissionais de TI geraram, em 2015, 111,9 mil postos de trabalho, respondendo por 35,5% do total de postos de trabalho em TI nas empresas que compõem o N-SSTI. O Comércio varejista especializado de equipamentos e suprimentos de informática e a Administração pública em geral foram os que mais contrataram pessoal de TI, em 2015 (Tabela 1).

Tabela 1 – Número de profissionais de TI com vínculo empregatício formal nos doze segmentos de outros setores econômicos exceto software e serviços de TI (N-SSTI) com o maior número absoluto destes profissionais – Brasil, 2015

Perfil de competências no N-SSTI

Em comparação com o setor brasileiro de software e serviços de TI, no conjunto constituído pelas empresas dos demais setores econômicos (N-SSTI), é maior a participação de profissionais de TI com perfil NG – nível gerencial (diretores e gerentes de TI) e NT – nível técnico (programadores, técnicos em operação e monitoração de computadores e técnicos em operação de máquinas de transmissão de dados). Apesar disso, os profissionais com ocupações de nível superior também são a maioria no N-SSTI (Figura 2).

A presença relativamente maior de pessoas com perfil de competências NG e NT no N-SSTI pode ser um indicativo da terceirização (outsourcing) de atividades de desenvolvimento de software e de alguns outros serviços mais especializados ou de maior valor agregado para as empresas com finalidade principal em software e serviços de TI (SSTI). O quadro de profissionais de TI contratados por empresas do N-SSTI tende a se concentrar, com o passar dos anos, por um lado, em funções de especificação das soluções a serem encomendadas e/ou adquiridas e, por outro, no suporte de primeiro nível aos usuários internos de informática.

Figura 2 – Distribuição do número de profissionais com vínculo empregatício formal em ocupações de TI no setor de software e serviços de TI (SSTI) e em outros setores econômicos (N-SSTI), considerando perfil de competências – Brasil, 2015

Ao longo dos anos, também é de se supor que empresas de menor porte do N-SSTI, sem capacidade para manter equipe interna para atividades informática, inicie ou avance o seu processo de informatização, adquirindo soluções prontas e/ou contratando profissionais do SSTI para prestação de serviços. A informatização de pequenas empresas, portanto, também ajuda a explicar o crescimento maior do número de profissionais de TI no SSTI em relação ao N-SSTI.

Ocupação em TI no N-SSTI

A mesma tendência observada no SSTI, de contratação de pessoal com ensino superior, também existe no N-SSTI. Pessoas com nível superior completo ou incompleto são a maioria mesmo para a ocupação de técnico em programação que, supostamente, poderia ser exercida, mais que as demais mencionadas, por pessoal jovem, graduado ou cursando nível médio (Figura 3).

Figura 3 – Nível de escolaridade dos engenheiros em computação, especialistas em informática, analistas de sistemas computacionais e técnicos em programação empregados no setor de software e serviços de TI (SSTI) – Brasil, 2015

Tal como ocorre no SSTI, no conjunto formado por empresas dos outros setores da economia (N-SSTI), observa-se desaceleração do crescimento do número de profissionais de TI. Ela afeta o conjunto das ocupações em TI como um todo e cada uma delas, separadamente. Como um resultado direto da crise econômica, o número de empregados em ocupações de TI no N-SSTI caiu em 2015, ano de pior resultado da série 2007 a 2015. A linha pontilhada na Figura 4 mostra a tendência de crescimento ao longo dos anos.

Figura 4 – Taxa do crescimento anual do número de vínculos empregatícios em ocupações de TI dos demais setores econômicos exceto software e serviços de TI (N-SSTI), considerando total e por ocupação – Brasil, período 2007 a 2015

Profissionais de TI considerando segmentos do N-SSTI

No conjunto constituído pelas empresas de outros setores econômicos (N-SSTI), a composição da força de trabalho empregada em ocupações de TI varia significativamente conforme os setores e seus segmentos. Em alguns, observa-se presença maior de profissionais de TI de nível gerencial, sejam diretores sejam gerentes. Em outros, o destaque fica por conta da participação comparativamente superior à verificada em outros setores e segmentos (ou à verificada para a média do N-SSTI) de profissionais em ocupações NS ou NT.

Assim, considerando os segmentos do N-SSTI que mais empregam profissionais de TI, na Administração pública em geral, ressalta-se a presença comparativamente superior aos demais segmentos de diretores de serviços de informática e de técnicos em operação e monitoração de computadores. No segmento dos Bancos múltiplos com carteira comercial, a presença dos especialistas em informática é superior à média verificada no N-SSTI e nos demais segmentos sob análise. Nesse segmento, junto com o de telecomunicações com fio, também é relativamente alta a participação dos analistas de sistemas computacionais, que vem associada a uma baixa presença relativa de técnicos em programação.

Nas atividades de Consultoria em gestão empresarial, a participação dos analistas de sistemas computacionais é elevada assim como a dos técnicos em programação, uma evidência de que o segmento optou pelo desenvolvimento/manutenção in house de soluções. Nos serviços combinados de escritório e apoio administrativo, o destaque fica por conta da presença alta em relação à média dos demais segmentos de diretores de serviços de informática e gerentes de TI.

No comércio varejista, no segmento de reparação e manutenção de computadores e periféricos, nas atividades de teleatendimento, em outras atividades em telecomunicações e, também, nas atividades de atendimento hospitalar, destaca-se a participação dos técnicos em operação e monitoração de computadores no conjunto dos profissionais de TI. O quadro interno de pessoal em TI parece estar sendo utilizado, mais que nos demais segmentos, para atividades operacionais (Tabela 2).

Tabela 2 – Distribuição dos profissionais com vínculo empregatício em ocupações de TI empregados em outros setores econômicos exceto software e serviços de TI (N-SSTI), considerando segmento com o maior número absoluto destes profissionais – Brasil, 2015

A diferença de ênfase no tipo de profissional de TI contratado por cada segmento do N-SSTI permite distribuí-los em subgrupos. A classificação proposta baseada nas ocorrências bastante superiores como nas muito inferiores à média encontradas para uma dada ocupação em TI, dá indícios das especificidades de cada segmento no que se refere ao grau de informatização e às decisões envolvendo manter ou não as atividades de informática in house.

Assim, por exemplo, o segmento de bancos múltiplos e as atividades de serviços combinados de escritório e apoio administrativo destacam-se, mais que os demais, por apresentar participação maior de mão de obra nobre, constituída por gerentes de TI, especialistas em informática e analistas de sistemas computacionais. O foco interno parece mais relacionado com a especificação de produtos e serviços e com atividades internas relacionadas com manutenção de bases de dados e sistemas preexistentes (Figura 5).

No segmento de serviços prestados às empresas, também é forte a presença de recursos humanos nobres para atividades especializadas e de gestão. Nesse segmento, a participação de analistas de sistemas computacionais é inferior, o que significa que possivelmente haja um envolvimento menor das empresas do segmento com o desenvolvimento de software in house.

Nas outras atividades de telecomunicações, o foco em gerentes e especialistas combina-se com a importância relativa de recursos humanos técnicos, para operação e monitoração de computadores e para transmissão de dados. Os programadores são destaque nos segmentos de consultoria em gestão empresarial, educação superior, reparação de computadores e comércio varejista especializado de equipamentos e suprimentos de informática. No caso dos serviços de consultoria em gestão empresarial, também se observa uma presença marcante de analistas de sistemas computacionais.

Figura 5 – Participação relativa do número de profissionais de TI com uma dada ocupação no total de profissionais de TI de cada segmento N-SSTI, considerando os doze segmentos com maior número absoluto destes profissionais – Brasil, 2015

A partir dos achados, considerando diferentes perfis de ocupações (gestão, engenharia, análise/especificação, operação, especialização e desenvolvimento de software), seria possível distribuir os segmentos selecionados dos demais setores econômicos da economia exceto o setor de software e serviços de TI (N-SSTI) conforme a sua vocação em TI da seguinte forma (Figura 6):

  • Comércio varejista especializado de equipamentos e suprimentos de informática (COM VAR) – engenharia + operação.

  • Administração pública em geral (AD PUB) – gestão + operação.

  • Bancos múltiplos com carteira comercial (BANCO) – gestão + análise/especificação + especialização.

  • Telecomunicações com fio (TELECO FIO) – análise/especificação.

  • Reparação e manutenção de computadores e de equipamentos periféricos (REPAR COMP) – operação.

  • Atividades de consultoria em gestão empresarial (CONS GESTÃO) – análise/especificação + desenvolvimento de software.

  • Educação superior – graduação e pós-graduação (EDUC) – engenharia + desenvolvimento de software.

  • Atividades de teleatendimento (ATIV TELEAT) – operação.

  • Atividades de serviços prestados principalmente às empresas não especificados anteriormente (SERV EMPR) – especialização.

  • Serviços combinados de escritório e apoio administrativo (SERV COMB) – gestão.

  • Outras atividades em telecomunicações (OUTR TELECO) – operação.

  • Atividades de atendimento hospitalar (AT HOSP) – operação.

Figura 6 – Perfil das ocupações em TI, considerando diferentes segmentos de outros setores econômicos exceto o setor de software e serviços de TI (N-SSTI)

Tal como ocorrido no SSTI, no conjunto de empresas que constituem o N-SSTI, também se observa, em 2015, redução no ritmo de crescimento do número de profissionais empregados em ocupações de TI e, na maioria dos casos, inclusive redução do número destes profissionais, em relação a 2014 (Figura 7). Em apenas um segmento (Administração pública em geral) dos doze investigados ocorreu, em 2015, um pequeno aumento da taxa de crescimento da força de trabalho em TI. No segmento de Serviços prestados principalmente às empresas observa-se pequena redução do ritmo de queda em andamento da quantidade de pessoas empregadas em TI. O cenário poderia ser visto de modo positivo, se a redução (ou desaceleração do crescimento) do número de profissionais em TI no N-SSTI significasse um maior dinamismo de contratação pelo SSTI. No entanto, este não foi o caso, em 2015.

Figura 7 – Número de vínculos empregatícios (VE) formais em TI em 2015 x taxa de crescimento anual do número de vínculos VE em TI para o período 2007 a 2015 e para o período 2014 a 2015, considerando os doze segmentos de outros setores econômicos exceto software e serviços de TI (N-SSTI) com maior número absoluto de profissionais em TI, Brasil

Notas metodológicas:

Para o período 2007 a 2010, os dados relativos ao número de vínculos empregatícios em ocupações de TI no N-SSTI são parciais em virtude de erros na fonte, para o Estado de Rondônia.

Para efeito desta publicação, o número de vínculos empregatícios está sendo considerado como sinônimo de número de pessoas empregadas. Isto nem sempre é certo, pois uma mesma pessoa, em tese, pode possuir mais de um vínculo empregatício. Embora esta situação possa ser comum em algumas profissões liberais, não é um caso típico nas atividades de software e serviços de TI.

O setor de software e serviços de TI (SSTI) é formado por empresas com atividade principal, ou seja, fonte principal de receita, em uma das seguintes classes CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) da versão 2.0: 6201 – Desenvolvimento de software sob encomenda; 6202 – Desenvolvimento e licenciamento de software customizável; 6203 – Desenvolvimento e licenciamento de software não customizável; 6204 – Consultoria em TI; 6209 – Suporte técnico, manutenção e outros serviços de TI; 6311 – Tratamento de dados, provedores de serviços de aplicação e de hospedagem na Internet; 6319 – Portais, provedores de conteúdo e outros serviços de informação na Internet.

O N-SSTI (Não-SSTI), envolve todos os demais setores da economia, exceto o SSTI.

Tendo como ponto de partida a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), as seguintes ocupações foram definidas pela TIC em Foco como ocupações em TI: diretores de serviços de informática, gerentes de tecnologia da informação, engenheiros em computação, especialistas em informática, analistas de sistemas ocupacionais, técnicos em programação, técnicos em operação e monitoração de computadores, técnicos em operação de máquinas de transmissão de dados. A escolha foi realizada considerando a descrição das funções exercidas pelas várias ocupações existentes, tal como registradas pela CBO.

A distribuição das ocupações em TI por perfis de competências de nível gerencial (NG), nível superior (NS) e nível técnico (NT) é uma contribuição da TIC em Foco. Ela sugere uma relação entre cada ocupação e um dado nível de escolaridade. No entanto, embora esta relação seja esperada, nada obriga que ela exista na prática. Assim, nada impede que pessoas com formação superior atuem em ocupações de nível técnico e, em sentido inverso, que pessoas com formação de nível técnico desempenhem funções que, em princípio, seriam mais moldadas para profissionais com escolaridade de nível superior. Os engenheiros em computação são exceção. Neste caso, em virtude da regularização da profissão de engenheiro, o curso superior é requerido para o seu exercício.

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Virgínia Duarte
Socióloga e cientista política, com especialização em gestão empresarial. Foi responsável pela área de Inteligência da Softex. Responsável técnica e coautora de várias publicações sobre o setor de TIC. É sócia-diretora da TIC em Foco Estudos e Projetos e editora do site/blog TIC em Foco.

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