Por que Israel tornou-se um celeiro de startups de alta tecnologia?

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“Israel tem mais empresas listadas na Nasdaq do que qualquer outro país, exceto EUA e China. Ostenta mais capital de risco, mais startups e mais cientistas e profissionais de tecnologia per capita. Para compreender esses números, é necessário entender a misteriosa Unit 8200”, diz a Forbes no artigo “Israel tem a melhor (e mais misteriosa) máquina de startups do mundo”, publicado em 01/01/2017.

A Unit 8200 é a unidade de segurança cibernética e inteligência das FDI (Forças de Defesa de Israel). Vários egressos da unidade criaram startups (entre elas, Waze e Wix, por exemplo), muitas foram adquiridas, em algum momento recente, por empresas globais. Por exemplo, a Adallon, especializada em privacidade de dados, vendida para a Microsoft por US$ 320 milhões; a Onavo, com análises na área de mobilidade, comprada pelo Facebook por US$ 150 milhões; e da CyActive, dedicada à prevenção de invasões de hackers, adquirida pela PayPal por US$ 60 milhões.

Cinco fatores – seleção, cultura, motivação, rotatividade e desenvolvimento de redes – explicam, segundo a Forbes, por que Israel se tornou um celeiro tão fértil para o empreendedorismo tecnológico. A seguir, discute-se cada um deles.

  • Seleção – O processo de seleção dos futuros integrantes da Unit 8200 ocorre quando os jovens estão prestes a deixar o ensino médio e devem iniciar o serviço militar. A unidade tem o direito de escolher aqueles que mais atendem às suas necessidades. Também costuma acompanhar os jovens, por meio de programas extracurriculares para hackers e prodígios tecnológicos. Uma diferença relevante com outros bons processos de seleção de talentos realizados por universidades, é que a Unit 8200 não fica à mercê de quem se candidata: cabe a ela escolher, ao invés de torcer para ser escolhida.

O recrutamento em Israel é sigiloso. As entrevistas de admissão para a unidade são realizadas por soldados com pouco mais de vinte anos que buscam pessoas para assumirem as funções que eles vinham exercendo até então. O que buscam? Jovens com capacidade para aprender rapidamente, facilidade para trabalhar em equipe e gosto para desafios. O foco é dirigido para o que a pessoa pode vir ser ao invés do que é ou foi. Nesse sentido, o que procuram não é o aluno com um boletim impecável. A Unit 8200 está aberta para pessoas que tiveram notas baixas e péssimo desempenho escolar.

  • Cultura – A Unit 8200 trabalha em cenário de contenção de recursos. O dinheiro está aquém do que seria preciso. A disponibilidade de pessoas para os projetos está abaixo da necessária. Os prazos são sempre muito curtos, há um enorme senso de urgência.

Além disso, ninguém explica exatamente o que deve ser feito.  As instruções limitam-se a colocar um desafio e pedir sejam dadas soluções.

Se um soldado acha que as decisões de seus superiores não estão corretas, pode ignorar as patentes e procurar a hierarquia superior para tratar o assunto diretamente com ela. O inverso também é verdadeiro: o chefe da unidade sente-se à vontade para convidar um recém-ingresso para falar sobre a sua visão pessoal de dado problema, por exemplo.

  • Motivação – Os integrantes da Unit 8200 são cientes da sua responsabilidade. Sabem que as vidas dos jovens que servem o exército dependem das soluções desenvolvidas na unidade. Essa forte motivação pode levar a turnos de 24 a 28 horas de trabalho, durante “operações especiais”.

Após deixar o serviço militar, o jovem talento egresso da Unit 8200 incorpora à sua história pessoal e ao seu trabalho profissional a experiência que teve em situações de vida ou morte.

  • Rotatividade – O tempo médio de serviço de alistamento na unidade 8200 é de quatro anos. Isso significa que existe uma rotatividade anual de 25%, o que permite criar um ativo relevante de pessoas disponíveis no mercado. A alta rotatividade obriga as equipes a exercerem disciplina nos projetos de produtos e sistemas. Como muitos dos desenvolvedores não estarão por lá para ver suas invenções entrarem em operação, elas têm de ser construídas de maneira que permitam que os novatos deem continuidade aos projetos.

A unidade de segurança cibernética de Israel é um exemplo bem-sucedido de educação continuada. A rotatividade é uma via de mão dupla. Os veteranos precisam atuar como reservas por até três semanas por ano. Dessa forma, têm condições de manter contato com a unidade, conhecendo o que de novo está sendo feito por lá.

  • Rede – Não se pode subestimar o poder da rede constituída pelos egressos da Unit 8200. Os ex-integrantes da unidade são jovens em torno de 24 anos que passaram os últimos cinco anos de suas vidas lidando com situações, produtos e sistemas ativos e críticos do mundo real. Ao fundarem suas startups, atraem os ex-colegas de trabalho, eliminando etapas do processo tradicional de recrutamento e seleção. Os contratantes têm certeza de que irão dispor de profissionais confiáveis e com altíssimo nível de habilidades.

 Case Israel: ingredientes de sucesso no empreendedorismo tecnológico

1 SELEÇÃO
  • Durante o ensino médio.
  • A unidade, e não o candidato, tem a iniciativa no processo.
  • A cargo dos jovens que buscam os seus substitutos diretos.
  • Soft skills, ao invés de boas notas: aprender rapidamente, trabalhar em equipe, gosto por desafios e resiliência.
2 CULTURA
  • Restrição de recursos financeiros e humanos.
  • Prazos curtos, senso de urgência.
  • Poucas instruções: aprender fazendo; busca de soluções para desafios concretos.
  • Estrutura hierárquica com baixa rigidez.
3 MOTIVAÇÃO
  • Responsabilidade.
  • Percepção da relevância do trabalho a ser feito e das implicações em cumpri-lo adequadamente.
4 ROTATIVIDADE
  • Turnover anual de 25%; mão de obra qualificada ingressando anualmente no mercado.
  • Consciência de que os projetos em desenvolvimento deverão ser finalizados por outros.
5 REDE
  • Relações acontecem após o período de prestação dos serviços: retorno periódico dos veteranos para conhecer e apoiar o trabalho dos recrutas.
  • Egressos são rapidamente captados pelos ex-integrantes do grupo já estabelecidos no mercado.
  • Redução da complexidade dos processos tradicionais de recrutamento e seleção.
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Virgínia Duarte
Socióloga e cientista política, com especialização em gestão empresarial. Foi responsável pela área de Inteligência da Softex. Responsável técnica e coautora de várias publicações sobre o setor de TIC. É sócia-diretora da TIC em Foco Estudos e Projetos e editora do site/blog TIC em Foco.

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