Mobilidade urbana: tecnologia é apenas parte da solução

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O assunto mobilidade urbana está cada vez mais presente na pauta de inquietações dos gestores municipais e na lista de lamentações dos cidadãos, que provavelmente convivem com um trânsito caótico, enfrentam filas, têm dificuldades para encontrar vaga em estacionamento, etc. Apesar da unanimidade em torno da importância de resolver questões envolvendo a mobilidade, há diferenças e nuances significativas na forma de enfrentar o imenso desafio de se movimentar especialmente nas grandes cidades.

Um número cada vez maior de especialistas aposta nas cidades habilitadas por tecnologias digitais, as cidades inteligentes, como solução. Não por acaso, estudo recente sobre a Internet das Coisas, aponta as cidades inteligentes e, dentro delas, a mobilidade urbana, como um dos temas que deveriam ser foco das políticas públicas brasileiras, dadas as oportunidades existentes para o país, propiciadas pelo crescimento sem controle das cidades, pelo caos urbano e pelas demandas da população ainda sem respostas eficazes.

Um número crescente de especialistas também concorda que na discussão sobre mobilidade, sustentabilidade e sociodiversidade são aspectos que precisam ser considerados. Isso significa pensar na mobilidade tendo como foco a cidade e o cidadão e não apenas os veículos.

Ter uma visão estratégica, holística e integrada da cidade será importante no futuro, pois nenhuma solução isolada irá resolver o problema da mobilidade. As cidades terão que aprender a conviver com diferentes soluções em mobilidade. Elas incluem BRTs (veículos articulados que trafegam em corredores exclusivos), metrôs e VLTs (trens modernos de superfície, cujos trilhos cortam a cidade, encaixando-se ao meio urbano), carros e ônibus elétricos, veículos autônomos (sem motorista na direção). Requerem pistas e trilhos exclusivos, grandes rodovias e pequenas ruas, além de espaços para caminhada e pedalada.

Para essa visão estratégica e abrangente, vale pensar nas cidades como uma estrutura, um esqueleto forjado pela história e cultura, sobre a qual se ergue a vida das pessoas e são tomadas decisões cruciais sobre locais para moradia, trabalho, entretenimento, alternativas de mobilidade e, também, agora, cada vez mais, possibilidades de conexão à rede.

Uma forma nova de pensar as cidades e reduzir as dificuldades com a mobilidade seria a integração crescente, em um mesmo local físico, dos vários aspectos da vida: moradia, trabalho, entretenimento, mobilidade e conectividade. Essa alternativa é inteligente, pois promove a sustentabilidade, o uso mais eficiente dos recursos, diminuindo o tempo e o custo com deslocamentos e infraestrutura.

As cidades inteligentes também caminham na direção da inclusão das pessoas, evitando segmentar o espaço por idade, religião, classe social, etc. Elas promovem a diversidade, criando ambientes propícios para a convivência e a colaboração na diferença e para a inovação, como resultado das visões variadas e nem sempre convergentes sobre a realidade.

Na prática, existe ainda um longo caminho a ser percorrido para forjar produtos, serviços e cidadãos que tornam as cidades inteligentes. Isso exigirá planejamento e redesenho drástico das cidades. Tornar uma cidade inteligente não é só uma questão de tecnologia. É necessário conceber e assimilar uma percepção diferente, sustentável e profundamente humana das cidades e do seu papel na vida das pessoas. Além disso, as mudanças necessárias exigem vontade, energia, foco e responsabilidade por parte dos gestores públicos; recursos financeiros dos investidores; e consciência e maturidade da população.

Atualmente, as discussões sobre mobilidade urbana ainda estão muito centradas no automóvel, em torná-lo menos poluente e fazê-lo circular mais rapidamente pelas vias públicas. Mas o automóvel é egoísta, consome muito, exige demasiado espaço. Existem, e precisam ser contempladas, formas mais solidárias de deslocamento.

Cada cidade é uma cidade. É importante considerar a sua estrutura própria, definir os seus caminhos e espaços prioritários. Em locais em que existe maior densidade, a oferta de transporte público precisa ser privilegiada. O embarque tem que acontecer rapidamente, dando ao ônibus, no caso de ser este o meio de transporte selecionado, o mesmo desempenho do metrô. O transporte público central deve estar integrado e conectado a uma rede variada de opções de transporte: metrô, carro, táxi, bicicleta. Isso tem que trabalhar, tudo junto, de modo harmônico.

Os carros continuarão existindo no futuro. Mas o seu formato e uso irão mudar, por questões de necessidade. Os fabricantes de automóveis estão trabalhando na concepção de carros menores, totalmente recicláveis. Serão elétricos, com capacidade de abastecimento rápido. É provável que o carro do futuro circule com velocidade reduzida (máximo de 25 km.) e possua autonomia baixa (120/150 km.). Os carros elétricos individuais e as bicicletas terão posição de destaque nas vias secundárias. BRTs, VLTs e metrôs dominarão a espinha dorsal da estrutura. Esse é o modelo da cidade de Barcelona, onde sistemas em rede integram vários modais. Em maior ou menor prazo, o mundo inteiro deverá em breve adotar este modelo.

Mas, no momento, as cidades ainda não estão tirando vantagens das alternativas possíveis de mobilidade. No redesenho da mobilidade, o uso do espaço terá de ser redefinido, com moradias e locais de trabalho situando-se ao longo dos grandes corredores, da espinha dorsal.

O transporte em massa de qualidade é caro, mas uma resposta eficaz ao uso individual do carro. Para evitar custos desnecessários, o sistema precisa ser planejado. E transformar o espaço urbano não é tarefa fácil. Se não há um bom planejamento, as necessidades podem ser superdimensionadas, aumentando os transtornos para a população e levando a gastos desnecessários.

O emprego da tecnologia digital será importante para tornar as cidades inteligentes e enfrentar a questão da mobilidade urbana. Mas a tecnologia está longe de ser a única resposta inteligente para a questão da mobilidade urbana e tampouco deve ser o único fator a ser considerado.

Na linha de respostas inteligentes, novos modelos de negócios estão sugerindo formas criativas de uso de veículos individuais nas cidades. O aluguel de carro ou bicicleta encontra-se entre eles. O usuário acessa um carro ou bicicleta em algum ponto específico da cidade, deixando-o em algum outro ponto, após percorrer o trajeto de interesse, pagando um dado valor pelo uso do veículo pelo tempo necessário. O novo modelo traz várias vantagens para o usuário:

  1. Ele não precisa imobilizar recursos na aquisição do bem. Paga apenas pelo tempo de uso.

  1. Não há necessidade de se preocupar com a manutenção do bem, que fica a cargo do prestador de serviços.

  1. A sua velha garagem fica liberada para outras funções.

Esse e outros modelos de negócios inovadores deveriam ser tratados com atenção especial pelos gestores públicos. Para que se tornem viáveis, várias questões relevantes necessitam ser equacionadas: novo arcabouço legislativo, quem paga a conta dos investimentos financeiros requeridos, definição dos locais para pegar e largar os veículos de aluguel; decisões sobre o que fazer com a enorme frota de veículos atualmente disponível; respostas às pressões que certamente virão da indústria automobilística e que destino dar para a enorme cadeia de fornecedores e distribuidores que se liga a ela, etc. São questões difíceis até porque significam uma mudança de paradigma: a substituição de uma sociedade baseada na posse/apropriação de bens para uma sociedade que promove o uso compartilhado dos bens.

A complexidade envolvida nas tomadas de decisões estratégicas, holísticas e integradas é muito elevada. E isso, claro, é um fator que contribui para a inércia. Parece mais fácil discutir, chegar a um consenso e tomar decisões em nível local, que em nível nacional ou global. Primeiro porque o problema é das cidades, 65% das emissões de carbono se originam nas cidades. Segundo, porque o acordo entre países no intuito de reduzir a emissão de carbono, que poderia ser um pontapé inicial e dar os contornos sobre o que fazer, pode demorar muito a sair do papel. Mas mesmo as tomadas de decisão em nível local são difíceis. Requerem visão e atitude dos gestores públicos e, em geral, o que se vê é excesso de burocracia, demora nos processos decisórios, cofres vazios e gerenciamento de curto prazo.

Assim, ao invés de uma visão top–down, estratégica e abrangente das cidades, o que desponta aqui e ali são as soluções do tipo bottom-up, que nascem a partir da vontade de empreender de alguns cidadãos. Nessa linha, já existem modelos de negócios inovadores na onda iniciada por Uber e Waze. São aplicativos para troca de informações sobre o trânsito acidentes na estrada em tempo real, para obtenção de carona, para entrega de mercadorias, para empréstimo de carros em momentos não utilizados pelo dono, para aluguel temporário da própria garagem próxima a um grande evento, etc. Ou seja, enquanto os governos enfrentam dificuldades para se articular e fazer as coisas acontecerem, os desafios com a mobilidade urbana vão sendo resolvidos, de modo difuso, pontual, esporádico e descoordenado, por aqueles que sentem o problema na carne. Com tecnologia, claro, e muita criatividade. Mas a falta, como contrapartida das iniciativas bottom-up, de uma visão top-down integrada, abrangente e humana restringe as possibilidades e os benefícios potenciais da tecnologia, limita a inteligência das cidades.

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Virgínia Duarte
Socióloga e cientista política, com especialização em gestão empresarial. Foi responsável pela área de Inteligência da Softex. Responsável técnica e coautora de várias publicações sobre o setor de TIC. É sócia-diretora da TIC em Foco Estudos e Projetos e editora do site/blog TIC em Foco.

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