Exportações e importações de software e serviços de TI em 2015: algumas conjecturas

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Os serviços representam uma parte pequena, mas crescente, do comércio exterior brasileiro. No período recente, os valores exportados têm sido inferiores aos importados, ampliando o déficit na conta serviços ao longo dos anos. No entanto, 2015 apresentou um movimento contrário ao que vinha sendo observado. Os valores com exportações e importações de serviços caíram, com estas sofrendo queda maior que aquelas (Figura 1).

Figura 1 – Evolução da balança de Comércio Exterior de Serviços – Brasil, período 2007 a 2015

Possíveis razões para a não-substituição de serviços antes importados por serviços locais em momentos de crise

Dentro do contexto apresentado, seria interessante verificar em que medida os serviços que os brasileiros deixaram de adquirir lá fora passaram ou não a ser adquiridos de empresas locais. A substituição das importações, em condições mais ou menos similares, não prejudicaria o comprador e traria, como efeito positivo, o fortalecimento da economia doméstica, situação bem-vinda, especialmente considerando a conjuntura de crise. No entanto, a substituição de serviços importados por opções nacionais pode não acontecer por razões diversas. Citam-se algumas a seguir, avaliando o efeito para a empresa compradora, a economia local e a balança comercial do país (Quadro 1).

Superfluidade – Uma das razões para o comprador não substituir os serviços antes importados é que estes são supérfluos. Neste caso, a desistência da importação não provoca efeitos negativos relevantes para os negócios do comprador; tende a afetar positivamente a economia brasileira, pois estimula a troca por opções locais; e é um fator positivo para a balança de pagamentos, já que reduz o déficit da conta serviços.

Dispensabilidade – Outro motivo para que a substituição não ocorra é que a crise econômica pode fazer com que um serviço externo que, em época de crescimento econômico, era indispensável para os negócios dos compradores, deixe de sê-lo. A redução das importações, neste caso, é uma constatação do efeito provocado pela crise nos empreendimentos individuais. Isto é, a crise pode tornar desnecessária a substituição pois processos produtivos que dependiam de serviços importados já não acontecem. Neste caso, a substituição das importações por serviços locais simplesmente não faz sentido no novo contexto. A crise prejudica os negócios individuais e a economia como um todo, apesar da melhora no saldo da balança comercial externa.

Inaptidão local – Uma terceira razão para não substituir serviços adquiridos no exterior por opções locais pode ter a ver com a impossibilidade (impedimento em virtude da proteção da propriedade industrial, por exemplo) de fazê-lo ou com a falta de capacidade interna (formação deficiente dos recursos humanos, por exemplo) para fazê-lo. A inaptidão local é uma situação mais crítica que a anterior, pois a redução das importações pode ser evidência que a crise econômica impede os compradores de importar serviços que são essenciais e não há condições internas para superar o desafio. Neste caso, a redução das importações está na raiz de um prejuízo severo para os negócios individuais do comprador e para o agravamento profundo da crise econômica. Vale lembrar que, diante da impossibilidade de substituição por opções locais de serviços importados essenciais, o comprador irá, dentro do possível, continuar importando, a menos que a severidade da crise tenha reduzido significativamente o seu poder de compra. Uma vez que continue importando, o efeito sobre a balança comercial do país, que em princípio é positivo, tornar-se-á negativo.

Quadro 1 – Razões para não substituir importações em época de crise e feitos para a empresa compradora, para a economia local e para a balança comercial do Brasil

Possíveis razões para a queda das exportações em momentos de crise

E o que poderia explicar a redução das exportações nos momentos de crise? Não era de se esperar que, diante das dificuldades econômicas internas que afetam a capacidade de compra do mercado local, as empresas buscassem exportar mais ao invés de exportar menos? Discutem-se a seguir alguns possíveis motivos para a queda das exportações e os seus efeitos para a empresa, a economia local e a balança comercial do país.

Descapitalização – Em alguns casos, a crise pode dificultar as iniciativas de exportação, pois reduz os recursos financeiros necessários para levar a cabo uma série de providências complementares indispensáveis à oferta de serviços no exterior. Provavelmente os serviços mais prejudicados são os que exigem da empresa um investimento inicial maior de recursos para a obtenção de ganhos subsequentes. Em sentido contrário, os menos prejudicados seriam aqueles que requerem investimentos iniciais menores.

Reorientação de foco – A situação de crise pode levar o empresário a redirecionar o foco do seu negócio, concentrando-se em um nicho específico de atuação e postergando ou redimensionando os seus planos de expansão. Para o empresário, em épocas de crise, pode ser demais iniciar ou manter atividades relacionadas com as exportações, mesmo que isto, em princípio, não signifique um investimento inicial significativo. Para a empresa, o efeito tende a ser positivo. Para a economia local, pode ser neutro ou positivo, já que o empresário irá concentrar o seu foco no mercado doméstico. É negativo para a balança comercial brasileira.

Efeito dominó – Existem serviços de exportação que estão fortemente atrelados ao bom desempenho da economia interna. Assim, a perda de dinamismo local provoca, como resultado, a queda nas exportações. As consequências são negativas para o vendedor, para a economia local e, também, para a balança comercial do país.

Garantia de atendimento – Esta é uma situação em que o empresário irá continuar exportando. A garantia de atendimento tem a ver com acordos de prestação de serviços já assumidos no exterior que necessitam ser cumpridos. O cumprimento possivelmente precisará ocorrer mesmo em situações em que, para o empresário, em virtude da crise, continuar exportando é um esforço e não um benefício. Assim, os efeitos da garantia de atendimento podem ser positivos ou negativos para a empresa; tendem a ser neutros ou negativos para a economia local, dependendo do impacto nas atividades da empresa; e benéficos para a balança comercial brasileira.

Quadro 2 – Motivos que levam à redução das exportações em época de crise e seus efeitos para a empresa vendedora, para a economia local e para a balança comercial do Brasil

Exportações e importações no setor de software e serviços de TI

Para os anos de 2014 e 2015, o segmento de software e serviços de TI apresenta o mesmo comportamento que o setor de serviços como um todo. Ou seja:

  • em 2015 houve queda nas exportações e importações de software e serviços de TI;

  • o saldo da balança comercial de software e serviços de TI, negativo em 2014, apresenta uma pequena melhora em 2015, embora mantendo-se negativo.

A seguir, considerando o segmento de software e serviços de TI, busca-se levantar em que situações as exportações e importações continuaram ocorrendo em 2015 e em que casos parecem ter sido especialmente prejudicadas pela crise econômica do país e por quê.

Importações de software e serviços de TI

Tal como ocorrido com o setor brasileiro de serviços em geral, as importações de software e serviços de TI despencaram em 2015 (Tabela 2).

Entre 2014 e 2015, houve uma redução expressiva da importação de serviços de consultoria em TI (-60,7%), item responsável por fatia considerável dos gastos com importação. Os motivos para esta redução possivelmente tenham a ver com a dispensabilidade desses serviços. Dado o fraco dinamismo da economia local, os clientes externos podem estar adiando o desenvolvimento de novos projetos no país, decidindo que não é o momento adequado para contar com parceiros para novos investimentos. A superfluidade também se enquadra neste caso. O cliente interno que antes importava serviços de consultoria em TI passa, agora, a utilizar fornecedores locais ou tem como adiar o seu desejo de consumo.

Os serviços de suporte em TI, de projeto e desenvolvimento de software personalizado (principal item, em termos de montantes envolvidos) e de manutenção de aplicativos e programas tiveram apenas uma pequena queda de receita. Esse é um indício de que estes serviços têm importância para as empresas locais e são de difícil substituição por fornecedores locais. Em todos esses casos, por questões envolvendo a inaptidão local, a troca de fornecedor externo por fornecedor interno parece inviável.

Houve redução relevante (superior a 50%) na rubrica outros serviços de projetos e desenvolvimento. Neste caso, é muito provável que os clientes que antes utilizavam fornecedores externos para os serviços de desenvolvimento estejam buscando opções locais ou adiando os seus projetos de desenvolvimento (superfluidade).

Apesar da crise, em 2015, observa-se um crescimento muito significativo (superior a 100%) nas importações de serviços envolvendo a segurança em TI. Esses serviços respondem por uma fatia pouco expressiva dos gastos totais mas deverão crescer nos próximos anos. A permanência do item na pauta de importações tem a ver com inaptidão interna, já que segurança é cada vez um assunto mais relevante e as firmas estrangeiras dominam este segmento de mercado.

Na mesma linha, ressalta-se, ainda, o crescimento significativo de importações de outros serviços de infraestrutura para hospedagem em TI. De um ano para outro, os gastos quase triplicaram, uma evidência da importância crescente da computação em nuvem e da ainda aparente dificuldade de o Brasil criar soluções próprias. A inaptidão local possivelmente explique a busca pelos serviços externos e este é um item da pauta de importações cujos valores deverão continuar crescendo, nos próximos anos.

Tabela 1 – Importações Brasileiras de Software e Serviços de TI – Brasil, 2014 e 2015

Exportações brasileiras de software e serviços de TI

Na Tabela 3, apresentam-se dados de exportações brasileiras de software e serviços de TI em 2014 e 2015. Observa-se que houve redução de quase 9% nas receitas com exportações, que foram da ordem de US$ 1,6 bilhão em 2014 e encolheram para US$ 1,4 bilhão, em 2015.

O segmento mais prejudicado foi o de consultoria, com queda de 48,7% nas exportações (de US$ 461,1 milhões em 2014 para US$ 236,5 milhões, em 2015). As atividades de consultoria são uma das fontes principais de receita das empresas brasileiras no comércio exterior. Considerando o quadro levantado anteriormente e as características da atividade, é de se supor que a redução significativa das exportações de serviços de consultoria tenha a ver, sobretudo com dois motivos: reorientação de foco e efeito dominó. É provável que parte dos serviços de consultoria em TI realizados por firmas brasileiras para clientes externos estejam atrelados ao bom desempenho da economia doméstica. É de se supor, por exemplo, que empresas interessadas no mercado brasileiro busquem consultoras locais para orientá-las sobre as mudanças a serem realizadas em seus produtos e serviços, visando a sua adaptação à realidade brasileira. Atividades relacionadas com a representação de produtos e serviços no mercado externo também tendem a ser prejudicadas com a crise econômica que reduz o interesse externo pelo país.

Embora os valores envolvidos não sejam elevados, há uma queda também relevante da receita com serviços de integração de sistemas de TI (-63,7%). Isso pode ser um indicativo da reorientação de foco das empresas, talvez até provocada pela tendência à redução da complexidade das soluções desenvolvidas em software. É de se supor, também, que a questão da falta de interoperabilidade entre soluções de diferentes parceiros seja cada vez mais resolvida com a disseminação de uso das plataformas abertas.

As exportações de serviços de suporte em TI, outro item relevante na pauta brasileira, sofreram menos com a crise, mantendo a receita em patamar semelhante ao observado em 2014 (um pouco menos de US$ 200 milhões). Os serviços de manutenção de aplicativos e programas tampouco parecem ter sentido o efeito forte da crise, com a receita crescendo 6,8% em 2015. Considerando as características dos serviços de suporte e manutenção é de se supor que o motivo para dar prosseguimento às exportações tenha a ver, sobretudo, com a garantia de atendimento. O cliente obteve produtos no passado que dependem, agora, de apoio recorrente e isto mantém a roda girando.

Os serviços de projeto e desenvolvimento de aplicativos e programas em TI também foram pouco abalados. Houve uma pequena redução no valor total em exportações (de US$ 500,5 milhões para US$ 489,9 milhões), com o principal item gerador de receita na categoria, serviços de projeto e desenvolvimento de software personalizado, crescendo 8,3% no período. Em virtude da crise, é possível imaginar que as empresas estejam descapitalizadas para realizar esforços iniciais de investimento, envolvendo prospecção, marketing e localização de produtos. Assim, como era de se esperar, os itens com maior crescimento dos valores em exportações são os serviços sob demanda, que independem de um investimento inicial elevado.

Entre os itens da pauta de exportação brasileira, os serviços de infraestrutura para hospedagem em tecnologia da informação foram o que mais cresceram no período (143,0%). Os valores exportados ainda são baixos, mas devem aumentar significativamente nos próximos anos, dada a importância cada vez maior do contexto de mobilidade. O crescimento da oferta desses serviços, portanto, tem a ver com uma reorientação de foco das empresas para negócios com demanda em alta.

Tabela 2 – Exportações Brasileiras de Software e Serviços de TI – Brasil, 2014 e 2015

O Quadro 3 resume os achados deste documento.

Quadro 3 – Razões para não importar e não exportar software e serviços de TI: conjecturas

Notas metodológicas

São apresentados dados dos dois módulos do SISCOSERV: Venda e Aquisição. Os dados extraídos do módulo Venda correspondem às vendas feitas por residentes ou domiciliados no Brasil a residentes ou domiciliados no exterior, ou seja, às exportações. De forma análoga, os dados extraídos do módulo Aquisição correspondem às aquisições feitas por residentes ou domiciliados no Brasil de residentes ou domiciliados no exterior, ou seja, às importações.

Para que o sigilo fiscal e comercial dos declarantes seja preservado os dados são divulgados apenas quando os resultados incluem mais de três residentes ou domiciliados no Brasil.

Glossário

BCB – Banco Central do Brasil

MDIC – Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio

NBS – Nomenclatura Brasileira de Serviços e Intangíveis

SCS – Secretaria de Comércio de Serviços

Siscoserv – Sistema de Comércio de Serviços

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Virgínia Duarte
Socióloga e cientista política, com especialização em gestão empresarial. Foi responsável pela área de Inteligência da Softex. Responsável técnica e coautora de várias publicações sobre o setor de TIC. É sócia-diretora da TIC em Foco Estudos e Projetos e editora do site/blog TIC em Foco.

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