Crescimento do número de profissionais de TI: uma visão sistêmica

0
360

Profissionais de TI no setor de software e serviços de TI e em outros setores

Os profissionais de TI podem estar empregados em empresas que têm a TI como atividade principal, sua fonte principal de receita, ou em empresas com outras atividades econômicas (bancos, telecomunicações, comércio varejista, manufatura, etc.). Empresas com atividades variadas, especialmente de médio e grande porte, mantêm um departamento próprio de TI. Os recursos humanos em TI são contratados por estas empresas para realização in house de serviços diversos, incluindo, por exemplo, a especificação e o desenvolvimento de software e a prestação de serviços de suporte aos usuários internos.

Comparando o que ocorre em ambos os tipos de empresas, observa-se o seguinte:

1. Em 2015, existiam 203,2 mil profissionais de TI empregados no setor de software e serviços de TI (SSTI) e 315,5 mil trabalhando em empresas de outros setores (N-SSTI). Ou seja, a maioria dos profissionais de TI encontra-se empregada em empresas que não têm software e serviços de TI como a sua atividade principal (Figura 1).

Figura 1 – Número de profissionais de TI empregados no setor de software e serviços de TI (SSTI) e em outros setores (N-SSTI) – Brasil, 2007 a 2015

2. Ao longo do período, o número de profissionais de TI tem crescido, sobretudo, nas empresas do setor de software e serviços de TI. A quantidade de profissionais de TI cresceu, em média, 10,9% ao ano nestas empresas, enquanto que o aumento médio foi de 5,3% a.a. no conjunto constituído pelas empresas de outros setores econômicos.

3. O crescimento maior dos empregos em TI em empresas que têm como atividade-fim o desenvolvimento de software e a prestação de serviços de TI pode ter várias explicações. Uma delas diz respeito à intensificação da terceirização de atividades em TI que vinham sendo realizadas pelos departamentos de TI das empresas de outros setores para as empresas que têm software e serviços de TI como atividade core, em um processo denominado outsourcing. A terceirização pode abranger partes maiores ou menores do trabalho que já vinha sendo feito internamente. Em geral, é um fator positivo para os envolvidos. A contratante tende a reduzir custos e a contratada pode alcançar retornos crescentes, por conta da obtenção de ganhos de escala e da reutilização em outros clientes do conhecimento formal e tácito adquirido com a prestação de serviço.

Mesmo empresas que mantêm equipes in house podem preferir adquirir software ou contratar serviços de desenvolvimento de empresas do SSTI. Este não é um caso de outsourcing, já que não há uma substituição do trabalho que vinha sendo realizado internamente pelas atividades de um fornecedor externo. O que ocorre é uma decisão estratégica, realizada por empresas do N-SSTI, de adquirir software e/ou solicitar serviços de desenvolvimento para o SSTI. Decisões desta natureza tendem a fortalecer o setor de software e serviços de TI, ampliando a sua capacidade para gerar riqueza. As equipes internas de TI tendem a ser enxutas e utilizadas para um conjunto relativamente pequeno de atividades em TI, incluindo, entre elas, a especificação dos softwares e serviços de TI a serem adquiridos ou contratados fora.

A informatização crescente de empresas de outros setores que não contam com um departamento próprio de TI é outro motivo que pode explicar o crescimento maior de empregos em TI nas empresas do setor. Trata-se, em geral, de empresas de pequeno e médio porte, cujo tamanho por si só desaconselha a manutenção de uma equipe interna especializada em TI. Ou seja, essas empresas não optaram pela contratação de serviços de outsourcing porque não tinham departamentos internos de TI a serem substituídos. Não decidiram estrategicamente pela aquisição ou contratação fora, como uma alternativa à possibilidade existente de realização in house, porque esta possibilidade não existia. Dadas as limitações deste perfil de empresas para lidar com a tecnologia, provavelmente serão mais propícias à aquisição de software produto (customizável ou não customizável) do que à contratação de serviços de desenvolvimento, mas, como regra geral, irão buscar nos parceiros apoio para levar a cabo o seu processo de informatização.

O cliente do SSTI pode estar localizado no país ou residir fora. Um aumento das exportações de software e serviços de TI seria, portanto, também, em tese, um motivo para o crescimento do número de profissionais de TI nas empresas do setor.

Outra explicação para o aumento dos recursos humanos em TI no conjunto constituído por empresa com atividade-fim em software e serviços de TI teria a ver com a reorientação do setor para atividades mais intensivas em mão de obra. Neste caso, embora a reorientação possa ser vista de modo positivo, já que gera mais emprego, pode embutir, como efeito negativo, a redução da produtividade, ou seja, há um custo maior em gastos com pessoal, para cada real que a empresa é capaz de ganhar.

Ainda no que diz respeito à produtividade, deve-se considerar a possibilidade de que o aumento de pessoas seja uma consequência da necessidade maior de retrabalho em virtude, por exemplo, da contratação de uma força de trabalho mais jovem e de mais baixo custo ou, também, de mão de obra menos capacitada, revelando, naquele caso, uma necessidade de as empresas conterem os gastos com pessoal e, neste, uma deficiência nos processos de capacitação e formação da mão de obra em TI.

Figura 2 – Crescimento do número de profissionais de TI nas empresas do setor de software e serviços de TI (SSTI): uma visão sistêmica

Assim, as explicações para o crescimento expressivo do número de profissionais de TI no SSTI e para o crescimento modesto da quantidade destes profissionais no N-SSTI podem envolver quatro diferentes conjuntos de fatores:

I – Decisões estratégicas de terceirização tomadas por médias e grandes empresas do N-SSTI e informatização de micro e pequenas empresas deste setor.

II – Comércio externo de software de software e serviços de TI.

III – Reorientação do SSTI brasileiro para atividades mais intensivas em mão de obra.

IV – Perda da produtividade em virtude da redução da capacitação da mão de obra em TI.

Os conjuntos de fatores podem estar atuando juntos ou separadamente, criando efeitos positivos ou negativos que podem se reforçar ou anular. Vale, portanto, uma reflexão maior do que está provocando o crescimento dos recursos humanos em TI nas empresas de software e serviços de TI. Esse assunto deverá ser retomado em nossos próximos artigos.

- Publicidade -
Innovation Hunter
COMPARTILHAR
Virgínia Duarte
Socióloga e cientista política, com especialização em gestão empresarial. Foi responsável pela área de Inteligência da Softex. Responsável técnica e coautora de várias publicações sobre o setor de TIC. É sócia-diretora da TIC em Foco Estudos e Projetos e editora do site/blog TIC em Foco.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.